Os dois quilômetros
do canal do Peixoto foram construídos pela iniciativa pública
e privada. Trabalharam ali soldados e presidiários. Para auxiliar
a obra, um trem foi transportado desde Palmares até o canal, rodando
sobre apenas 180m de trilhos (9m cada) que eram sistematicamente passados
à frente da locomotiva - uma loucura.
.

O naufrágio de um barco a
vapor foi manchete no Correio do Povo e protagonizou a edição
de um livro. O saldo de 18 mortos, incluindo um deputado da UDN,
comoveu a cidade de Osório.
Uma rajada forte do Sudoeste, no
início da tarde de 20 de sembro de 1947 foi a causa do desastre
ocorrido na Pinguela Sul (ao largo do povoado denominado Livramento).
Para ter-se uma idéia da
intensidade do vento na ocasião, cabe lembrar que o rebocador
Bento Gonçalves, naufragado no dia do general de mesmo nome, tem
(ou tinha2),
15m (50') de comprimento e 12 toneladas (capacidade bruta).
A viagem começou na Lagoa
do Marcelino, em Osório, e tinha por destino Maquiné, onde
o deputado Osvaldo Bastos participaria de comício (veja foto do
barco, abaixo).
(2)
Até
1984 o rebocador estava na ativa, com motor diesel.
Depoimento do sobrevivente Arzemiro Viana:
"Saímos do porto às
11 passadas. A viagem correu normal, tanto na Lagoa do Marcelino como na
Peixoto e no canal do Caconde. Mas quando entramos na Pinguela, vi que
o vento era brabo. Tínhamos acabado de comer e estávamos
conversando eu, o dr. Osvaldo, o José Madalena, o Candoca Osório,
o Maneca Quadros e o João Clemente. O dr. Osvaldo ainda perguntou
se não havia perigo ao Luis Candita e este respondeu que no dia
anterior havia cruzado a lagoa com duas chatas ao reboque e com vento muito
mais forte. Lembro-me bem que ele disse pro dr. Osvaldo: "Pode vir ainda
uns dois quilômetros de vento, doutor, que o "Bento" resiste. Daqui
uns 20 minutos damos a popa ao vento". Mal o Candita acaba de dar esta
explicação e veio um tapão de mar que virou o barco,
ficando as janelas encostando n'água. Eu e o José Madalena
saímos logo por cima do barco. Quando o "Bento" afundou, ficamos
em cima da cabina. Quando o barco estava quase cheio d'água, avistei
o dr. Osvaldo lá dentro da casa de comando procurando sair. Agarrei
ele pelos pulsos e ajudei-o a sair. Deparei em seguida com o Maneca Quadros
e ajudei ele também, mas foi o primeiro que vi morrer. O segundo
foi o Candoca Souza e o terceiro o dr. Osvaldo que nadou umas vinte braças.
Aí chegaram à torre de comando João Clemente, o marinheiro
Neptuno e um outro marinheiro, o cel. Darci Feijó, o José
Madalena e um colono de nome Balsani. Nesse meio-tempo desprendeu-se uma
tábua do barco e uma outra em que me agarrei e tentei abandonar
o "Bento". José Madalena e Candoca me disseram pra eu não
me atirar que eu ia morrer. Respondí-lhes que estava tudo morto
e que eu sabia nadar um pouco, por isso ia experimentar. Ao sair uns quatro
metros, veio um tapa de mar muito forte e reconheci que não dava
pra aventurar. Disse então pro José Madalena, que estava
mais perto de mim, que fosse pra chaminé, mas ele não quis,
dizendo que, se ia morrer, preferia morrer nadando. Fui então pra
chaminé e sentei-me nela com os pés pra dentro do cano. A
água estava fervendo, mas eu encolhi as pernas pra não queimar
os pés. Animei-me um pouco. Nisto, já restavam poucos de
nós. Tinha uns três em cima do toldo, querendo se segurar
no que restava do barco. Eu disse pra eles: "Saiam daí de cima que
isso vai despregar". O toldo desprendeu-se mesmo e ficaram em cima dele
João Clemente e o marinheiro Neptuno. Nessa ocasião desprendeu-se
outra tábua e eu vi o cel. Feijó agarrar-se nela. Ficaram
no barco apenas João Balsani e eu na chaminé. Quando desprendeu-se
a última parede, João Balsani deitou-se em cima dela e morreu.
Fiquei sozinho no barco. O Neptuno e o João Clemente lutavam com
a tábua do toldo que de quando em vez o vento tomava das mãos
deles. Por mais de três horas eles nadaram pra terra, enquanto eu
gritava e dava tiros com o meu revólver, do alto da chaminé,
para dar algum sinal. Deviam ser umas três e tantas quando não
vi mais o Neptuno que havia saído de cuecas e camisa branca. Minha
esperança era que o João Clemente chegasse em terra e desse
algum aviso pra me salvarem. Não sei, mas alguma coisa me dizia
que eu ia ser salvo. Quando começou a escurecer, fiquei um pouco
desanimado. O que seria de mim, de noite, naquela posição,
de costas pro vento e com as pernas encolhidas, dentro da chaminé
pra poder me segurar com os joelhos? Graças ao bom Deus, antes de
ficar escuro de todo, chegou a lancha "Taquari". Quando avistei ela de
longe criei alma nova. Continuei fazendo sinais como deviam encostar, pois
eu sabia a posição em que estava o "Bento Gonçalves",
no fundo d'água".
Depoimento do sobrevivente João Clemente Vilar:
"Eu já estava prevendo que
algo ia se dar. Por duas vezes perguntei ao capitão se não
estávamos correndo perigo. Mas ele me respondeu que não,
dizendo: Hoje é dia de Bento Gonçalves e nada poderá
acontecer a este "Bento". Nisso veio uma rajada de vento mais forte e o
barco virou. Não sou muito bom nadador, mas como velho canoeiro
sei que nestes momentos o que é preciso é ter calma. Procurei
me segurar nas paredes do barco enquanto ele não afundava de todo,
até que vi quebrar o toldo da cabine e atirei-me no rumo dela. Era
a única coisa em que podia me agarrar. Se não fosse o vento,
muitos outros teriam se agarrado também, mas com as rajadas era
difícil a gente se segurar em qualquer parte.
Para lhe dizer a verdade, não
sei bem como morreram os outros. Lembro-me que um dos rapazes da tripulação
veio para o meu lado e se agarrou também no toldo que era uma tábua
fina e difícil da gente se segurar nela. Mas era tudo o que tínhamos.
Ficamos os dois lutando contra o vento. Esta luta durou mais de três
horas, se não me engano. Já perto da praia, acho que o rapaz
encarangou porque o frio era horrível. Sumiu n'água e não
apareceu mais. Fui nadando sozinho e quando consegui tomar pé no
junco do Camacho, estava que não agüentava mais nem um minuto.
Me deu um tremor de frio e uma falta de ar que eu pensava que ia morrer
ali mesmo, como um bicho, sem o socorro de um vivente. Lembrei-me porém,
que estava perto da casa do Quinca Leandro e fui me arrastando pra lá
como cobra no meio dos taquarais. Durante muito tempo não pude dizer
senão que o "Bento" tinha naufragado e que tinha ficado apenas um
homem em cima da chaminé".
Rebocador Bento Gonçalves,
recém resgatado