História da Navegação na Pinguela
 (esta seção está em desenvolvimento)


    Os dois quilômetros do canal do Peixoto foram construídos pela iniciativa pública e privada. Trabalharam ali soldados e presidiários. Para auxiliar a obra, um trem foi transportado desde Palmares até o canal, rodando sobre apenas 180m de trilhos (9m cada) que eram sistematicamente passados à frente da locomotiva - uma loucura.
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foto de 1917 mostrando a obra do canal do Peixoto
As fotos antigas desta seção são reproduções de "Navegação Lacustre Osório-Torres" devidamente autorizadas pela autora, a quem todos os direitos são reservados.
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    Em 1914 a Pinguela foi ligada a Osório por uma linha telefônica. Uma grande deferência à região. O aparelho telefônico ainda existe e está em exposição no Pontal dos Diehl, onde há um pequeno museu sobre a navegação lacustre.
    "A navegação marítima, fluvial e lacustre sempre desempenhou papel relevante no processo de desenvolvimento de regiões no âmbito econômico, social e cultural.
    Na microregião do litoral setentrional do Estado do RGS também ocorreu isto.
    Fora a navegação, havia uma antiga opção - a serra ou os caminhos do litoral - de difícil acesso, exigindo, mesmo com bom tempo, infindáveis dias de viagem desde Torres até a capital do Estado.
    Foi principalmente pelo comércio de exportação da cachaça que esta região pode desenvolver-se. As famílias Voges, Diehl e Dreher assumiram este comércio e reforçaram seu poder econômico pelo casamento entre elas.
    O domínio comercial destas famílias só deixou de existir quando o Estado projetou e construiu a estrada de ferro em 1921 para que a comunicação com a capital se tornasse mais rápida e servisse de complemento à navegação lacustre que se desenvolvia de Osório a Torres".1
 


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   "Navegação Lacustre Osório-Torres" é o título da obra da Profª Marina Raymundo da Silva que embasou as informações sobre história até aqui apresentadas. O livro (ISBN 85-87242-01-6), publicado em 1985 e re-editado em 1999, contém 144 páginas e várias fotos antigas relatando o progresso da navegação. É muito interessante para quem tem curiosidades pela região.
(1) texto extraído do livro.
   O livro apresenta também mapas antigos de projetos na região. Para ver a "Planta Schematica de Conjuncto do Canal Porto Alegre a Torres", com dados de 30/jun/1918, clique aqui (arquivo com 140Kb).
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Naufrágio em 1947

    O naufrágio de um barco a vapor foi manchete no Correio do Povo e protagonizou a edição de um livro.  O saldo de 18 mortos, incluindo um deputado da UDN, comoveu a cidade de Osório.
    Uma rajada forte do Sudoeste, no início da tarde de 20 de sembro de 1947 foi a causa do desastre ocorrido na Pinguela Sul (ao largo do povoado denominado Livramento).
    Para ter-se uma idéia da intensidade do vento na ocasião,  cabe lembrar que o rebocador Bento Gonçalves, naufragado no dia do general de mesmo nome, tem (ou tinha2), 15m (50') de comprimento e 12 toneladas (capacidade bruta).
    A viagem começou na Lagoa do Marcelino, em Osório, e tinha por destino Maquiné, onde o deputado Osvaldo Bastos participaria de comício (veja foto do barco, abaixo).
(2) Até 1984 o rebocador estava na ativa, com motor diesel.

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    Além do livro "O Naufrágio do Bento Gonçalves" de Therezinha Cacilda (edição de 1985, já esgotada), há ainda outra publicação sobre o evento, de autoria da Profª Marina Raymundo da Silva (1993). Esta publicação traz os relatos dramáticos dos dois sobreviventes a um repórter do Correio:

    Depoimento do sobrevivente Arzemiro Viana:

    "Saímos do porto às 11 passadas. A viagem correu normal, tanto na Lagoa do Marcelino como na Peixoto e no canal do Caconde. Mas quando entramos na Pinguela, vi que o vento era brabo. Tínhamos acabado de comer e estávamos conversando eu, o dr. Osvaldo, o José Madalena, o Candoca Osório, o Maneca Quadros e o João Clemente. O dr. Osvaldo ainda perguntou se não havia perigo ao Luis Candita e este respondeu que no dia anterior havia cruzado a lagoa com duas chatas ao reboque e com vento muito mais forte. Lembro-me bem que ele disse pro dr. Osvaldo: "Pode vir ainda uns dois quilômetros de vento, doutor, que o "Bento" resiste. Daqui uns 20 minutos damos a popa ao vento". Mal o Candita acaba de dar esta explicação e veio um tapão de mar que virou o barco, ficando as janelas encostando n'água. Eu e o José Madalena saímos logo por cima do barco. Quando o "Bento" afundou, ficamos em cima da cabina. Quando o barco estava quase cheio d'água, avistei o dr. Osvaldo lá dentro da casa de comando procurando sair. Agarrei ele pelos pulsos e ajudei-o a sair. Deparei em seguida com o Maneca Quadros e ajudei ele também, mas foi o primeiro que vi morrer. O segundo foi o Candoca Souza e o terceiro o dr. Osvaldo que nadou umas vinte braças. Aí chegaram à torre de comando João Clemente, o marinheiro Neptuno e um outro marinheiro, o cel. Darci Feijó, o José Madalena e um colono de nome Balsani. Nesse meio-tempo desprendeu-se uma tábua do barco e uma outra em que me agarrei e tentei abandonar o "Bento". José Madalena e Candoca me disseram pra eu não me atirar que eu ia morrer. Respondí-lhes que estava tudo morto e que eu sabia nadar um pouco, por isso ia experimentar. Ao sair uns quatro metros, veio um tapa de mar muito forte e reconheci que não dava pra aventurar. Disse então pro José Madalena, que estava mais perto de mim, que fosse pra chaminé, mas ele não quis, dizendo que, se ia morrer, preferia morrer nadando. Fui então pra chaminé e sentei-me nela com os pés pra dentro do cano. A água estava fervendo, mas eu encolhi as pernas pra não queimar os pés. Animei-me um pouco. Nisto, já restavam poucos de nós. Tinha uns três em cima do toldo, querendo se segurar no que restava do barco. Eu disse pra eles: "Saiam daí de cima que isso vai despregar". O toldo desprendeu-se mesmo e ficaram em cima dele João Clemente e o marinheiro Neptuno. Nessa ocasião desprendeu-se outra tábua e eu vi o cel. Feijó agarrar-se nela. Ficaram no barco apenas João Balsani e eu na chaminé. Quando desprendeu-se a última parede, João Balsani deitou-se em cima dela e morreu. Fiquei sozinho no barco. O Neptuno e o João Clemente lutavam com a tábua do toldo que de quando em vez o vento tomava das mãos deles. Por mais de três horas eles nadaram pra terra, enquanto eu gritava e dava tiros com o meu revólver, do alto da chaminé, para dar algum sinal. Deviam ser umas três e tantas quando não vi mais o Neptuno que havia saído de cuecas e camisa branca. Minha esperança era que o João Clemente chegasse em terra e desse algum aviso pra me salvarem. Não sei, mas alguma coisa me dizia que eu ia ser salvo. Quando começou a escurecer, fiquei um pouco desanimado. O que seria de mim, de noite, naquela posição, de costas pro vento e com as pernas encolhidas, dentro da chaminé pra poder me segurar com os joelhos? Graças ao bom Deus, antes de ficar escuro de todo, chegou a lancha "Taquari". Quando avistei ela de longe criei alma nova. Continuei fazendo sinais como deviam encostar, pois eu sabia a posição em que estava o "Bento Gonçalves", no fundo d'água".
 

    Depoimento do sobrevivente João Clemente Vilar:

    "Eu já estava prevendo que algo ia se dar. Por duas vezes perguntei ao capitão se não estávamos correndo perigo. Mas ele me respondeu que não, dizendo: Hoje é dia de Bento Gonçalves e nada poderá acontecer a este "Bento". Nisso veio uma rajada de vento mais forte e o barco virou. Não sou muito bom nadador, mas como velho canoeiro sei que nestes momentos o que é preciso é ter calma. Procurei me segurar nas paredes do barco enquanto ele não afundava de todo, até que vi quebrar o toldo da cabine e atirei-me no rumo dela. Era a única coisa em que podia me agarrar. Se não fosse o vento, muitos outros teriam se agarrado também, mas com as rajadas era difícil a gente se segurar em qualquer parte.
    Para lhe dizer a verdade, não sei bem como morreram os outros. Lembro-me que um dos rapazes da tripulação veio para o meu lado e se agarrou também no toldo que era uma tábua fina e difícil da gente se segurar nela. Mas era tudo o que tínhamos. Ficamos os dois lutando contra o vento. Esta luta durou mais de três horas, se não me engano. Já perto da praia, acho que o rapaz encarangou porque o frio era horrível. Sumiu n'água e não apareceu mais. Fui nadando sozinho e quando consegui tomar pé no junco do Camacho, estava que não agüentava mais nem um minuto. Me deu um tremor de frio e uma falta de ar que eu pensava que ia morrer ali mesmo, como um bicho, sem o socorro de um vivente. Lembrei-me porém, que estava perto da casa do Quinca Leandro e fui me arrastando pra lá como cobra no meio dos taquarais. Durante muito tempo não pude dizer senão que o "Bento" tinha naufragado e que tinha ficado apenas um homem em cima da chaminé".

Rebocador Bento Gonçalves
  Rebocador Bento Gonçalves, recém resgatado

    Nas publicações citadas não encontrei informação quanto à carga do Bento, na ocasião. Estaria ele sobrecarregado? Tinha 7ton e podia levar mais 5ton de carga. Para ir a um comício, imagino que não levaria carga pesada. As 20 pessoas juntas não alcançavam duas toneladas. No entanto, resta a dúvida. E a curiosidade: caso não estivesse sobrecarregado, como uma rajada ("tapão de mar") pôde aderná-lo tanto, a ponto de virar?

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